A recuperação

20130622_170827Capítulo anterior: A química da vida 

A principal causa de morte no caso de envenenamento por chumbinho é a parada respiratória. O animal para de respirar porque os músculos vão ficando cada vez mais rígidos e tensos a ponto de não conseguirem mais fazer os movimentos necessários para a respiração. Os médicos chamam isso de hipertonicidade. É o contrário do que acontece quando a gente está dormindo. O sistema nervoso faz os músculos perderem tônus, ou seja, relaxarem. Por isso, quando sonhamos que estamos correndo não saímos pela casa: a musculatura não responde. No caso do envenenamento, ela fica tão dura que também não reage. Por isso, minhas dores eram tão horríveis. O chumbinho provoca contrações, espasmos, tremores – tudo tão forte e violento que todo o corpo fica rígido.

A veterinária entrou novamente na sala e acrescentou um diurético na sonda espetada em minha pata. Foi quando me dei conta pela primeira vez de que a sala do pronto socorro estava cheia de gaiolas com diversos gatos dos mais variados tipos. Até então haviam passado despercebidos para mim. Havia um branquinho, pequeno, bem perto. Comecei a rosnar para ele, ainda fraco. Aquele era o primeiro bom sinal de que eu estava melhorando. Os olhos de Erika e do marido se encheram de lágrimas. Uma ponta de esperança surgia nos olhos deles. Percebi isso e me senti um pouco mais forte.

A salivação excessiva, a dificuldade de respirar e os espasmos haviam melhorado. Os meus batimentos cardíacos estavam se normalizando, as dores diminuíam, mas o mal-estar ainda era grande, assim como os tremores. De fato, estava melhor, mas longe de estar bom. Foi quando a veterinária explicou que a partir daquele momento teriam início as horas mais determinantes para saber se o envenenamento me deixaria com alguma sequela – ou mesmo se eu sobreviveria ou não. O tratamento havia neutralizado a ação do veneno, mas a extensão do estrago que já causara era imprevisível. Algum órgão podia estar comprometido.  E, sim, eu poderia ficar com problemas neurológicos, o que afetaria o movimento das minhas patas. Talvez não andasse mais. A Erika desmoronou.

Agora, começava a caminhada contra a sorte. As primeiras 24 horas seriam cruciais. As 48 seguintes determinariam as sequelas.

Voltamos para casa, e a vontade de fazer xixi era enorme, incontrolável. Andava com muita dificuldade e ia deixando poças de líquido clarinho, quase transparente, por onde quer que passasse. Fiz na maca, fiz no chão do consultório, fiz na rua antes de entrar no carro, fiz quando chegamos ao nosso prédio. Fiz diversas vezes dentro de casa enquanto perambulava procurando um canto para me deixar. Nenhum lugar parecia servir. Mas era normal e esperado. Era efeito do diurético e era necessário ajudar meu sistema digestivo a expelir tudo o que restasse de toxinas.

Naquela noite, pela primeira vez, tive a autorização para dormir no quarto dela. Deitei e me enrodilhei do lado da cama, em cima do meu surrado edredom, do lado de Erika. Deitava, ela mexia nos meus pelos enquanto eu tentava dormir. Os tremores ainda atrapalhavam. Ainda tinha muitas dores. Ela também não dormiu de preocupação. Temia que a qualquer momento eu piorasse e queria estar pronta para correr comigo de volta ao veterinário. Ela não parava de me acariciar. E isso também me deu forças. Nunca ninguém tinha feito carinho em mim durante tanto tempo. Eu conquistara aquele coração.

No próximo capítulo: De volta ao pronto-socorro

Para acompanhar todos os capítulos da minha história, clique aqui. A ordem cronológica é de baixo para cima.

Até a próxima segunda.

Lambidas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *